Me apaixonei pelo livro,comecei a ler e resolvi ler junto com vocês,parei de ler e conforme irei postando aqui que eu já li,e o que eu não li ainda,lerei juntos com vocês,que visitam meu blog diariamente. Esse livro conta a história de um romance homossexual vivido nos anos 50 na cidade do Rio de Janeiro.
Devo os créditos a minha amiga de trabalho que me emprestou o livro: Jeane Stela,obrigado por ter compartilhado comigo essa grande obra na qual me identifico a cada página que leio,espero que gostem pessoal.
Devo os créditos a minha amiga de trabalho que me emprestou o livro: Jeane Stela,obrigado por ter compartilhado comigo essa grande obra na qual me identifico a cada página que leio,espero que gostem pessoal.
A linguagem que lerão a seguir,está do jeito que foi e está escrita no livro
Dois monstros,num só volume,reúno agora: o "Que chora" e o "Amigo". Uma história apenas ditou-me mais de um enrêdo diferentes soluções psicológicas para o mesmo drama. Separá-los seria perigoso: xifópagos,tais quais nasceram, assim vêm a luz: gêmeos de uma dor única, fil de igual desgraça.
No princípio havia o caos ...
Depois, aparece Roberto ...
E Roberto fez-se angústia e poesia ...
Depois, aparece Roberto ...
E Roberto fez-se angústia e poesia ...
MONSTRO QUE CHORA
Quaisquer semelhanças que possam existir entre Robertos, mães de Robertos, Monstros, vivos ou mortos, e as personagens desta história, são coincidências apenas ...
Não se responsabilizará, entretanto, o autor, se a dor da sua poesia fôr igual a dor que anda sôlta pelo mundo ...
Para todos os monstros que amam e choram ...
Sensacional! Última hora! ... Nasceu, na madrugada de hoje, em Marechal Hermes, um monstro de duas cabeças! (...)
Era uma vez um monstro ...
Um monstro belo e horrendo de quatro pernas, quatro braços e duas cabeças. Estranha contradição: o monstro era belo. Belas as suas duas cabeleiras louras onduladas, belos os seus quatro olhos verdes translúcidos, altivo o seu porte ereto e majestoso, lindos os seus dois sorrisos misteriosos de sonhador ...
Em tudo o monstro nascera duplo: nos membros, nas vísceras, no sexo... Como todo anormal inteligente, ganhava o pão para os seus dois estômagos exibindo a sua monstruosidade em público. Era um artista: dançava, representava, pintava e publicava livros.
Um dia, — estava o Monstro num dos seus inúmeros afazeres, preparando-se para entrar em cena, quando — uma senhora o procurou:
— É com o senhor Monstro que eu tenho a honra de falar?
— Exatamente.
— Sinto-me honrada em estar na presença do senhor ... Sou uma antiga admiradora da sua arte e gostaria que participasse de um espetáculo de caridade que estou organizando em favor de crianças pobres fluminenses ...
— E ficaria de acôrdo um número meu num festival dessa natureza?! ... Creio que a minha monstruosidade assustaria as crianças ...
— Ora,o senhor menospreza os seus talentos ... Há muito venho acompanhando a sua evolução artística e posso lhe assegurar que emocionará tanto à velhice, como à mocidade.
— A dor é eterna, minha senhora, e eu não faço mais do que reduzir um pouco da tristeza que acompanha sempre a vida ...
— É justamente em nome da miséria universal que lhe suplico o obséquio. Os órfãos do Estado do Rio ficar-lhe-ão, eternamente, gratos ...
Tanto a senhora pediu, tanto falou, que acabou por convencê-lo. O monstro vivia da sua atuação nos circos, nos clubes noturnos, nos teatros, recebendo uma remuneração pelo seu trabalho; aceder em exibir-se de graça, seria trair aos seus interêsses profissionais. Mas assim mesmo aquiesceu, porque, apesar de ser um monstro, possuía dois corações sensíveis e bondosos. Antes nunca tivesse saído do ambiente em que vivia, entre os palhaços, trapezistas, músicos e poetas, gente simples e compreensiva que o admirava e queria, para imiscuir-se no meio das mocinhas pretensiosas e dos rapazes arrogantes que se consideravam da alta sociedade e participariam do mesmo elenco.
Era uma vez um monstro ...
Um monstro belo e horrendo de quatro pernas, quatro braços e duas cabeças. Estranha contradição: o monstro era belo. Belas as suas duas cabeleiras louras onduladas, belos os seus quatro olhos verdes translúcidos, altivo o seu porte ereto e majestoso, lindos os seus dois sorrisos misteriosos de sonhador ...
Em tudo o monstro nascera duplo: nos membros, nas vísceras, no sexo... Como todo anormal inteligente, ganhava o pão para os seus dois estômagos exibindo a sua monstruosidade em público. Era um artista: dançava, representava, pintava e publicava livros.
Um dia, — estava o Monstro num dos seus inúmeros afazeres, preparando-se para entrar em cena, quando — uma senhora o procurou:
— É com o senhor Monstro que eu tenho a honra de falar?
— Exatamente.
— Sinto-me honrada em estar na presença do senhor ... Sou uma antiga admiradora da sua arte e gostaria que participasse de um espetáculo de caridade que estou organizando em favor de crianças pobres fluminenses ...
— E ficaria de acôrdo um número meu num festival dessa natureza?! ... Creio que a minha monstruosidade assustaria as crianças ...
— Ora,o senhor menospreza os seus talentos ... Há muito venho acompanhando a sua evolução artística e posso lhe assegurar que emocionará tanto à velhice, como à mocidade.
— A dor é eterna, minha senhora, e eu não faço mais do que reduzir um pouco da tristeza que acompanha sempre a vida ...
— É justamente em nome da miséria universal que lhe suplico o obséquio. Os órfãos do Estado do Rio ficar-lhe-ão, eternamente, gratos ...
Tanto a senhora pediu, tanto falou, que acabou por convencê-lo. O monstro vivia da sua atuação nos circos, nos clubes noturnos, nos teatros, recebendo uma remuneração pelo seu trabalho; aceder em exibir-se de graça, seria trair aos seus interêsses profissionais. Mas assim mesmo aquiesceu, porque, apesar de ser um monstro, possuía dois corações sensíveis e bondosos. Antes nunca tivesse saído do ambiente em que vivia, entre os palhaços, trapezistas, músicos e poetas, gente simples e compreensiva que o admirava e queria, para imiscuir-se no meio das mocinhas pretensiosas e dos rapazes arrogantes que se consideravam da alta sociedade e participariam do mesmo elenco.
Foi num dêsses ensaios, sob a orientação da tal senhora, que o Monstro conheceu o Roberto. Contrastando com aquela corja vazia e fútil o adolescente sobressaía nervoso de inteligente e o andar empertigado de conquistador. " Um rapaz que promete" — pensou o Monstro,notando-o. " Que individualidade estranha! " — conjeturou Roberto, observando-o. E da curiosidade mútua surgiu, desde logo, a amizade profunda.
Uma lista telefônica de nomes intermináveis de mulheres e homens carregava o Monstro como passado, e o passado do Roberto era apenas um livro em branco sem história. O Monstro para o Roberto representava a vida, a emoção, as lutas e o amor; para o Monstro, Roberto simbolizava um ideal. Aquilo que o jovem ouvia dizer, mas que ainda não conhecia, com os seus dezessete anos imcompletos, a maldade do mundo, o coque dos apetites humanos, o "ser ou não ser" filosófico, estavam incarnados no Monstro, como um mistério enigmático que precisava ser decifrado; a pureza espontânea das ações, a preocupação intelectual pronunciada, a retidão de caráter, a força de vontade inabalável, unificada, personificada numa só estrutura, o Monstro encontrara, por fim, em Roberto. Casaram-se Ideal e Realidade; tiveram um filho: a Desgraça. O impossível pariu o irrealizável.
Terminada a longa temporada em diversos palcos, sentia-se cansado o Monstro. Exausto de aturar os histerismos das jovens nababescas que se diziam novas Pavlovas e não sabiam fazer um "pas de bourrê", aborrecido por ver que o dinheiro destinado aos órfãos era repartido entre as organizadoras de festa, desiludido por constatar que os seus esforços não atingiam os fins visados. Com a alma cheia de fel e lama, resolveu tomar umas férias e partir para as montanhas. Roberto, por sua vez, precisava também de um clima ameno e solitário onde pudesse concentra-se nos estuudos de Química e Física indispensáveis aos examesvestibularessôbre um verde claro de sombras úmidas
O Monstro sentiu-se renascer: lá longe,distante da multidão que o lembrava,a todo momento, que era um marginal, esqueceu-se, por completo, da sua anormalidade. E soi feliz; feliz como nunca havia sido anteriormente. Roberto seduzi-o por completo, com seu mutismo profundo de interopesctivo, com sua criancice alegre e despreocupada de adolescente desabusado de garoto de Copacabana. O Monstro que era estéril e solteiro,desejou ser mãe e espôsa daquela criança grande. Embora sendo homem e mulher, não era nem bem homem, nem bem mulher. Possuía um coração direito masculino e um esquerdo feminino, que era o único que estremecia quando Roberto lhe segurava uma das quatro mãos, ou lhe beijava uma das duas bôcas. E assim, aos poucos, o Monstro se transformou em mãe e espôsa daquele púbere de orelhas de abano. Na cachoeira, sob a impetuosidade de água fria aos borbotões, abraçavam-se e desmaiavam de paixão. Possuíam um segrêdo: segrêdo grandioso e total que os unia e embriagava. Ah! Com tanta gente já havia dormido com o Monstro,mas só com Roberto experimentava auqela sensação de abandono e segurança, de interêsse completo, de integração absoluta. Pelas noites a dentro, mergulhados no negrume imenso do descampado inabitado, ficavam, dedos entrelaçados, na varanda, vislumbrando o vôo vampiresco dos morcegos e a cidade irrequieta dos vagalumes nos capinzais. Passeavam unidinhos pelas encostas penumbrosas. Queriam-se; desejavam-se ... O Monstro sentia mêdo dos horrores das trevas; Roberto confortava-o com carícias. "Êle é meu, uma propriedade minha: o meu filho, o meu espôso, o grande amor de tôda a minha vida." Triste ilusão, dolorosa felicidade! ... Prazeres do amor não duram mais que momentos ...
Quando voltaram novamente para o Rio, para o Carnaval, para o calor, para a futilidade torpe das amizades interesseiras, Roberto mudou completamente: já não era mais o seu filho: foi para a residência da mãe verdadeira, que o esperava: já não era mais o seu espôso: voltou para os braços mais rendosos de um monstro velho que o levava a passear de automóvel tôdas as manhãs e financiava-lhe os mínimos caprichos.
Começou então para o Monstro abandonado uma existência de lágrimas e desesperos. Não se conformava com aquela separação brusca, com aquêle indiferentismo cruel e injustificável, que o deixava, horas a fio, ao lado do telefone, esperando que Roberto o procurasse novamente, para saírem juntos, conversar ... Se ouvia uma música romântica, insensivelmente, as lágrimas começavam a escorrer-lhe, serenas, pelas faces; se ia a algum cinema para se distrair, tornava mais solitário, desgraçado e triste. Envelheceu, de um momento para o outro, mais de trinta anos; emagreceu ao ponto de perder quase dez quilos. Em vão esperava o sorriso de amizade, a palavra boa, que o libertaria daquela opressão que já se insinuava tirânico e absorvente. Em vão ... em vão ... Fez um recenseamento na humanidade inteira e ficou horrorizado: só Roberto existia no mundo ...
E sofreu,como até então nunca havia sofrido. A grosseria do seu amante, outrora, tão terno, feria o seu amor-própio, afogava no caos o que ainda lhe restava de dignidade e altivez. Quis se suicidar, morrer, matar ...
Roberto não soube ser amigo quando o Monstro lhe suplicou bondade e compreensão:
— Êste problema é, únicamente, teu. Resolve-o sozinho ... — repetiu-lhe, condenando-o, para sempre, ao tormento eterno.
Por mais de uma vez tentou ainda uma nova reconciliação; fracasso completo. Roberto, sem gentileza, tornava-se rude, agressivo mesmo.
E o Monstro, no vazio das quatro paredes frias do seu quarto, soluçando, começou a escrever versos e mais versos, que contavam os anseios e as dores daquele romance frustrado. Gritava os seus gemidos naquelas fôlhas de papel que era enviadas, pelo correio, para o enderêço do adolescente.
D. Mariquita, mãe do rapaz, passou a interceptar esta correspondência e ficou horrorizada. Com que, então, seu filho, o seu único rebento, andava de paparicos com um monstro!? ... Ah! Isto não estava direito. Acabaria, de uma vez por tôdas, com tamanha ousadia. Chamaria a Polícia até se fôsse necessário.Mais não foi preciso tanto. Uma tarde, o Monstro sentia-se sufocar; precisava ouvir a voz do seu amor, estar com êle. Como uma necessidade fisiológica, imperativa, vital, absorvente, acimas das fôrças da razão, mais poderosa que qualquer vontade, dobrou-se novamente, ao desejo de procurá-lo. Discou o telefone. Do outro lado atendeu uma voz feminina, agressiva:
— Alô!
— Eu desejo falar com o Roberto,minha senhora
— disse, quase a mêdo, o Monstro.
— E quem deseja falar com o meu filho? ...
— Um colega ... da Faculdade. — mentiu.
Após momentos vertiginosos de expectativa aquêle tímbre modulante que o Monstro tanto amava e conhecia:
— Pronto.
— É o Roberto?
— Sim ...
— Sou eu ...
— Um momento ...
Nova pausa. Roberto voltando*se para D. Mariquita:
— Mamãe é êle.
E a voz metálica da senhora fez*se novamente ouvir:
— Quem fala aqui, senhor Monstro, é a mãe do Roberto. Meu filho autorizou*me a pedir*lhe que o senhor não insista em telefonemas, nem mande mais cartas porque êle absolutamente não deseja a sua amizade. E além do mais, o senhor não é o tipo de companhia que convém ao meu filho ...
E foi por aí adiante, numa série interminável de ofensas e grosserias. O Monstro nada disse: ouviu tudo em silêncio, sofrendo calado. A vida, o mundo, parecia desmoronar-se sob seus quatro pés. Rodavam-lhe nas duas cabeças mil e um pensamentos desencontrados. Nada entendia, nem queria compreender nada. Apenas aquêle zumbido, estonteante, rodando, girando, gritante, ensurdecedor:
— Êle já não me ama, já não me quer ... Tudo destruído ... Acabou tudo ... Roberto ... Roberto ... Meu Deus, o que será de mim? ... Nada mais me resta ...
— Ah! rugia — Traíste-me, maltrataste-me ... Nem Judas foi tão mesquinho ...
O amor é como uma criança: deve nascer, crescer e morrer por si só, lentamente, sem que seja, assim, assassinado, sem que doa e enlouqueça. Mas Roberto, premeditadamente, quis ferir, humilhar ... Conhecia, de sobra, o orgulho, a sensibilidade, do Monstro; poderia ter usado outros meios, mais humanos; não haviam sido, afinal de contas, amigos? Todavia, delirante sádico gozou com o tormento do anormal, vangloriou-se de uma vitória injusta.
— Miserável! Criminoso! Ah! Não sou dos que morrem calados: luto e também mato a quem me fere ...
Sim; aquela ofensa precisava uma resposta. D. Mariquita, certamente, formara um conceito errado quanto à sua personalidade. Êle era um monstro, na verdade, mas não únicamente um monstro: tinha princípios, cultura, brios, suscetibilidades. Com que direito alguém o ofendia, o destruía, jogava na sarjeta a sua dignidade? Pelo simples fato de ter se apaixonado e ter sido, também, amado? ... Não. Não contaria a D. Mariquita aquela aventura linda de tão curta duração, nem lhe diria dos beijos sufocantes que ainda lhe queimavam as quatro faces e os quatro lábios; nem lhe revelaria o "segrêdo" daquela paixão nascida nas montanhas, daqueles passeios solitários ao relento, das mãos trêmulas que se entrelaçavam no escuro, daqueles banhos em que, ambos nus, abraçavam-se sob as águas impetuosas da cachoeira. Ela não entenderia; nem ela nem ninguém ...
— Os monstros não existem; os monstros não amam ...
A sociedade nega, procura esquecer a presença constragedora dêsses sêres ignóbeis de dois sexos. E aquela senhora, com ares matronais, imensa e distante, faria tudo para restituir o seu filho ao caminho que ela julgava ser o certo, porque era o caminho de todo o mundo, o caminho da normalidade, em que os medíocres nascem, crescem, casam-se, reproduzem-se e morrem, como qualquer simples cão e cadela. Os homens igualam-se aos porcos e às vacas, enquanto comem, defecam e parem ... Mas de amor, o amor que chora e estremece, o amor que vibra e entusiasma, que poderia compreender a mãe de Roberto? ... E de Psicologia, Literatura, Música, "Ballet"? ... E de ternura, compreensão, carinho? ... E daquela exaltação que vem de dentro e se sobrepõe a tôda a humanidade, como uma bandeira desfraldada, como um hino de glória, como sinfonia apoteótica? ...
Não; calar-se-ia o Monstro. Falaria a língua da vulgaridade, seria ruim; mostraria aos olhos inquiridores de D. Mariquita a podridão da vida, que ela conhecia tão bem. E de Roberto, vingar-se-ia. Fôra fraco; não soubera enfrentar com coragem uma situação; vergara-se âs imposições da autoridade quando dentro de si gritavam sublimes os sentimentos puros da paixão; seguira a pervesidade da mãe, agira, como ela, egoísta e traiçoeiramente ... Pereceria, pois ... Jogaria lama nos cérebros de ambos, criaria a desconfiança entre os dois, infermaria, para sempre, a existência daquele lar que o repelira.
O Monstro urrava de dor. Durante três dias e três noites não comeu, não dormiu e não falou. Bufava de raiva. Seus rostos tão lindos, transformaram-se em duas máscaras horrendas de tragédia ... Os germens do desespêro impestavam-lhe as carnes por dentro. Batia furiosamente com os crânios nas paredes e nas portas. Queria destruir-se e destruir também.
Alta madrugada,abriu as janelas. As estrêlas brincavam de vagalumes nos céus. Suspirou fundo; serenou. E racionalmente, fazendo um grande esfôrço para calar o coração escreveu:
"Exma. Senhora,
Cumpre-me a obrigação moral, como psicólogo e educador, de dar-lhe alguns esclarecimentos quanto à minha pseudo-amizade para com o seu filho, que, por ambos, foi mal interpretada.
Explico-me: conheci o Roberto em 1951 nos salões do Clube Lucrécia Borgia, à Avenida das Palmeiras, onde ensaiávamos alguns números com as alunas de D. Filomena (artisticamente conhecida como Ângela Augusta). Não é de hoje, portanto, que observo o temperamento, as reações, o caráter peculiar do seu púbere descendente. Três anos de convívio intermitente, em outros ensaios, para outras festas, ou em encontros casuais em Copacabana, possibilitaram-me a previsão das atitudes que tomaria em certas circunstâncias.
Sensibilizou-me, entretanto, ter com a minha curiosidade, aborrecido a Exma. Sra., que conheço apenas de nome, em referências elogiosas. Curiosidade, sim, que não foi mais o que me ligou ao seu filho: curiosidade de cientista diante de um caso de adolescência complexa, curiosidade de literato diante de uma sensibilidade supra-exaltada que foge ao comum e ao normal. Roberto — custa-me confessar-lhe — é um caso que precisa de orientação e carinho. Embora não pareça à primeira vista, é um introspectivo torturado. Estará a Exma. Sra. pensando: " Ele atribui ao meu filho que lhe afeta ". Pelo pouco que a Exma. Sra. me conhece poderá emitir as mais contraditórias hipóteses. Procurarei apenas narrar-lhe o que, em dados positivos, pôde colhêr a minha pouca ciência. Roberto sente-se inseguro: inseguro dentro de si mesmo, inseguro dentro do lar, talvez por algum traumatismo adquirido na infância do qual ainda não conseguiu libertar-se. Aferra-se, então, a uma fôrça de vontade extraordinária, inamovível, que o salvará, ou o destruirá para sempre.
De início, em nada despertou-me a atenção. Eu não fui à êle: foi êle que veio a mim. Após os ensaios, em vez de seguir diretamente para casa, às vêzes só, ou com outros colegas, acompanhava-me até às proximidades da minha residência, onde apanhava o bonde e provocava-me para que eu dissertasse sôbre vários assuntos. Por esta ocasião já se comentava o meu nome como autor de dois livros. Não terei a pretenção de considerar êsses meus trabalhos de criança como "obras-primas", mas causaram certa sensação porque criavam o tipo do pederasta passivo, até então pouco conhecido e explorado em literatura brasileira. Ora, uma coisa é criar um tipo artìsticamente, e outra o ser em realidade. Panquito minha Exma. Sra., é um homem tímido e recatado; no entanto, aparece aos olhos do público como gaiato e extrovertido. Já dizia Nietzsche: "Eu sou uma coisa, outra a minha obra." No primeiro dos meus livros apareço como um perdido homossexual, leproso, debochado, riquíssimo e no terceirocomo um paupérrimo homem do povo, sedento e faminto. Qual dos dois será o meu retrato? ... Confesso-lhe: nenhum. A minha realidade é outra. Mais o tipo que eu delineava, impressionou ao Roberto. E ficou muito desapontado quando, mais tarde, vislumbrou-se por um outro ângulo, êsse de todos os dias, ao lado da família e de preocupações burguesas ...
Desde então interessei-me, como psicólogo curioso, pelo filho da Exma. Sra. Êle dissimulava, tergiversava, escondia, fugia a qualquer análise mais demorada. Reagia sempre em autodefesa, como alguém que esconde algo profundo que não pode ser revelado, que julga ser terrível e trágico. Os temperamentos simples, que seguem uma evolução natural, não assumem as atitudes de nervosismo,de imprevisão, de quase agressividade que assumia o Roberto quando se lhe pretendia desnudar a alma. Revestia-se de formalidades estudadas para esconder-se. Começou a temer-se no momento em que as coisas que eu escreviam não eram fruto da minha imaginação, mas resultavam de uma paciente observação do material colhido "in loco". Aterrou-lhe a possibilidade de servir de cobaia aos meus estudos. A Exma. Sra. poderá tranqüilizá-lo pois só me utilizo das pessoas que, de ivre vontade,submetem-se ao meus questionários. Com o Roberto pretendi apenas chegar à conclusão de como solucionaria o seu conflito, o drama que o sufoca e aterra. E é disto, justamente, que tem pavor ... Peço à Exma. Sra. que o tranqüilize novamente porque me desinteressei, por completo, do seu caso; paranóicos torturados há, aos montes, nessa nova geração do após-guerra ...
No decorrer dêste período, pouco ou nunca o procurarei. Telefonava-me êle raramente e — se não me falha a memória — num Natal, para me apresentar telefônicamente a um colega seu, o qual conheci, mais tarde, pessoalmente em sua companhia. O tal rapaz — que tem a honra de freqüentar assiduamente a casa da Exma. Sra., nela até fazendo refeições, — informaram-me ser um pederasta profissional (homossexual jovem, alérgico ao trabalho honesto que se entrega a qualquer feitio de relações, mediante retribuições monetárias), com um passado muito conhecido no meio pevertido carioca. Embora sendo personalidade das qualidades que a Exma. Sra. pôde reconhecer, êsse defeito estrutural pouco o recomenda como orientador na formação do caráter do seu filho.
De início, em nada despertou-me a atenção. Eu não fui à êle: foi êle que veio a mim. Após os ensaios, em vez de seguir diretamente para casa, às vêzes só, ou com outros colegas, acompanhava-me até às proximidades da minha residência, onde apanhava o bonde e provocava-me para que eu dissertasse sôbre vários assuntos. Por esta ocasião já se comentava o meu nome como autor de dois livros. Não terei a pretenção de considerar êsses meus trabalhos de criança como "obras-primas", mas causaram certa sensação porque criavam o tipo do pederasta passivo, até então pouco conhecido e explorado em literatura brasileira. Ora, uma coisa é criar um tipo artìsticamente, e outra o ser em realidade. Panquito minha Exma. Sra., é um homem tímido e recatado; no entanto, aparece aos olhos do público como gaiato e extrovertido. Já dizia Nietzsche: "Eu sou uma coisa, outra a minha obra." No primeiro dos meus livros apareço como um perdido homossexual, leproso, debochado, riquíssimo e no terceirocomo um paupérrimo homem do povo, sedento e faminto. Qual dos dois será o meu retrato? ... Confesso-lhe: nenhum. A minha realidade é outra. Mais o tipo que eu delineava, impressionou ao Roberto. E ficou muito desapontado quando, mais tarde, vislumbrou-se por um outro ângulo, êsse de todos os dias, ao lado da família e de preocupações burguesas ...
Desde então interessei-me, como psicólogo curioso, pelo filho da Exma. Sra. Êle dissimulava, tergiversava, escondia, fugia a qualquer análise mais demorada. Reagia sempre em autodefesa, como alguém que esconde algo profundo que não pode ser revelado, que julga ser terrível e trágico. Os temperamentos simples, que seguem uma evolução natural, não assumem as atitudes de nervosismo,de imprevisão, de quase agressividade que assumia o Roberto quando se lhe pretendia desnudar a alma. Revestia-se de formalidades estudadas para esconder-se. Começou a temer-se no momento em que as coisas que eu escreviam não eram fruto da minha imaginação, mas resultavam de uma paciente observação do material colhido "in loco". Aterrou-lhe a possibilidade de servir de cobaia aos meus estudos. A Exma. Sra. poderá tranqüilizá-lo pois só me utilizo das pessoas que, de ivre vontade,submetem-se ao meus questionários. Com o Roberto pretendi apenas chegar à conclusão de como solucionaria o seu conflito, o drama que o sufoca e aterra. E é disto, justamente, que tem pavor ... Peço à Exma. Sra. que o tranqüilize novamente porque me desinteressei, por completo, do seu caso; paranóicos torturados há, aos montes, nessa nova geração do após-guerra ...
No decorrer dêste período, pouco ou nunca o procurarei. Telefonava-me êle raramente e — se não me falha a memória — num Natal, para me apresentar telefônicamente a um colega seu, o qual conheci, mais tarde, pessoalmente em sua companhia. O tal rapaz — que tem a honra de freqüentar assiduamente a casa da Exma. Sra., nela até fazendo refeições, — informaram-me ser um pederasta profissional (homossexual jovem, alérgico ao trabalho honesto que se entrega a qualquer feitio de relações, mediante retribuições monetárias), com um passado muito conhecido no meio pevertido carioca. Embora sendo personalidade das qualidades que a Exma. Sra. pôde reconhecer, êsse defeito estrutural pouco o recomenda como orientador na formação do caráter do seu filho.
Roberto se revelou uma tendência muito acentuada para o "ballet" nêle querendo aperfeiçoar-se. Dissuadi-o de tal propósito. Com muito jeito e tato, mostrei-lhe as desvantagens da vida em teatros, em quanto é ainda hostil a sociedade para artistas dêsse gênero. Aos poucos, derivou a sua tendência para o sapateado, que além de ser mais másculo,poderia servi-lhe de derivato. Ainda neste ponto lutei por afastá-lo; entretanto, uma ou duas aulas ainda tomou com o bailarino Rodolfo Lindoso, o mesmo que foi costureiro da Exma. Sra. — se não me engano.
Ora, tais tendências em adolescentes são perigosas e reveladoras. São tendências "incomuns". O homem simples e total, sem complexo de ordem sexual, jamais poderia admitir a possibilidade de exibir-se como bailarino no Brasil — a não ser que o movesse um ideal artístico muito grande, caso não era bem o do Roberto.
O racionalismo, premeditado, a frieza das ações — raramente constatados em jovens de tão pouca idade levaram-me a crer numa terrível luta interior da libido que teima em se inverter contra as imposições da sociedade (traduzida numa autoridade suprema: a crítica dos colegas, o mêdo de uma punição por parte dos pais, etc., impondo-se à razão como monstros terríveis). Seus colegas me revelaram que a pior ofensa que Roberto teme é a que chamem ou o julguem homossexual (o homem normal não teme êste fato porque está seguro da sua natureza de masculinidade institiva). Notei em Roberto, ao lado dêsse drama terrificante, aptidões intelectuais excepcionais. Se fôsse "um qualquer" eu não gastaria "o meu latim" — como se diz vulgarmente — nem procuraria salvá-lo. Salvá-lo, minha Exma. Sra., é o têrmo apropiado. Salvá-lo de um futuro triste e nebuloso, salvá-lo de uma existência entremeada de opróbios. Com a sensibilidade que lhe é peculiar, sofreria duplamente. Nestas circunstâncias, o mais recomendado é que se facilite ao adolescente o convívio sexual normal com mulheres, para que se estabeleçam reflexos condicionados normais. O que falta em orientação insitintiva precisa ser forçado em repetições mecânicas. Um casamento precoce ser-lhe-ia o ideal. A época é esta, passando a oportunidade, tudo estará irremediavelmente perdido. Ainda não há médicos que curem o homossexualismo; apenas se conseguem resultados positivosnuma fase inicialde inversão.
Com o auxílio de outros rapazes da turma, mais experientes que o filho da Exma. Sra., procurei oreintá-los no sentido de facilitarem ao Roberto o convívio com mulheres acessíveis. Se o conseguiram nunca o soube, mas creio que, em parte, muito fizeram nesse sentido apresentando-lhe mocinhas de vida independente. Já foi uma vitória nossa em campo tão hostil.
Em fevereiro do corrente ano, ainda em companhia do tal colega inseparável, encontrei-o à Avenida Atlântica; conversamos os três animadamente. Eu, como iria na semana próxima para o sítio do meu tio — como costumo fazer todos os anos — próximo a Belo Horizonte, narrei o fato. Roberto interessou-se em ir também; que estava em vésperas dos exames vestibulares, que precisava fugir do calor e do carnaval — disse-me, animado. Convidei-o, como seria de esperar, considerando que comigo iriam também dois primos, um sobrinho e a empregada. Constando-se com mais dois fâmulos do local, éramos ao todo oito pessoas, sendo três crianças de dois e doze anos. Foi quando Roberto conheceu-me no ambiente familiar em que constantemente vivo. Minha tia, na ocasião, terminava na América do Norte o seu curso de aperfeiçoamentode contraponto e fuga e, por isso, não acompanhava o marido.
Disse-me o Roberto uma vez:
— Você tem dupla personalidade. — Confundia literatura, ficção, com os fatos reais ...
Não quero aparecer aos olhos da Exma. Sra. como um exemplo de perfeições —longe disso ando eu. Mas, creia-me: com a minha amizade seu flho lucrou muito. Nos quinze ou vinte dias que passamos juntos, tudo fiz para que não se desviasse dos seus estudos: incentivel-o em cada instante.
Uma vez, como prêmio aos seus esforços, fomos a Belo Horizonte. Roberto surpreendeu-me: queria por fôrça, comprar lança-perfume para embriagar-se com éter. Distraí-lhe a atenção para outro lado e consegui que se esquecesse da idéia. Se eu fôsse um "inconveniente", ou um "inconsciente", como poderia pensar a Exma. Sra., teria me aproveitado das circunstâncias, inclusive da tendência homossexual passiva apresentada pelo seu filho. Com a experiência que tenho, posso lhe assegurar que me teria sido emprêsa fácil. Tal não aconteceu.
Observei-o — e disso êle não sabe — enquanto trancava-se no banheiro, através de uma janela lateral, podendo constatar a natureza das suas inclinações solitárias. O que veio reforçar as minhas hipóteses.
Além de cuidar do filho da Exma. Sra. eu gastava o meu tempo em Minas, com os meus escritos, pelos quais êle muito se interessava. Jamais lhe facilitei a leitura dos mesmos, pois a considero prejudicial ao seu cérebro por demais vibrátil. Roberto lia-os assim mesmo: pedindo-os emprestados a outros, chegando ao ponto de se inteirar de um romance em forma de diário em que eu trabalhava na ocasião, cujos manuscritos mantinha sempre gurdados dentro de uma mala que carregava comigo por tôda parte. Um só descuido meu e foi o suficiente para que a sua curiosidade o levasse a burlar a minha vigilância.
Eu terminava nessa época o meu ""Lágrima de Infeliz", poesias homossexuais, em que aparecia, de quando em vez, o nome de um ROBERTO que êle julgava dentro da sua ingenuidade, ser inspiração sua. No meu "Êxtase", editado em maio de 1951, há trechos como êste:
"Querida,
noiva desconhecida
do meu Roberto:
venho desejar-te
mil felicidades,
e que reviva contigo
as mesmas ternuras
que viveu comigo.
Moça, solteira,
altiva,
nada sabes de amos
e dos mistérios
da intimidade;
tranqüiliza-te:
nosso artigo é
de primeira qualidade ...
Falo-te assim,
por experiência própia ...
Ai de mim! Tão feliz um dia ...
É delicioso o jeito
com que nos beija
e acaricia ...
Isto eu te adianto:
o nosso noivo
é mesmo um encanto.
A experiência que empregará
nos teus braços,
foi com os meus abraços
que aprendeu.
Cara nubente,
neste dia de festa
dou-te o mais lindo
presente:
o meu homem querido,
meu macho preferido ... "
E eu ainda não conhecia o seu filho. Isto é fato constatável. Logo, conclui-se que ROBERTO é um nome por demais vulgar que emprego comumente nas minhas personagens. É de uma vulgaridade tão alarmante que se a Exma. Sra., num dia de sol, perto de uma praia e gritá-lo verá quantos rapazes lhe atenderão. Eu, pessoalmente, entre alunos e conhecidos, posso contar mais de dezessete ...
Pois estas poesias eram-lhe as de maior agrado. Isto justifica as cartas que comecei a enviar ao seu filho com alguns dêsses poemas. Mas dêste fato concluir-se que eu estava apaixonado por êle — a imaginação do seu filho criou êste absurdo, baseado nos meus escritos — vai um grande salto. Se eu fôsse homossexual ativo, minha Exma. Sra., não procuraria o Roberto porque acho suas pernas, feias, finas e cabeludas; e se eu fôsse homossexual passivo — outra hipótese — procuraria um homem verdadeiro (um Homem com H maiúsculo), sem êsses "tiques", sem êsses tremores, sem êsses dramas, um homem que sabe o que quer: e os há em profusão com tais pretensões. A opinião feminina quanto à masculinidade do filho da Exma. Sra. é unânime a êsse respeito: uma não gosta dêle porque acha que ele rebola quando dança nas festas, outra o julga um tímido, aquela o crê inexperiente, esta outra o julga com maus olhos porqu êle logo as diviniza ...
Saindo a vigésima-quinta edição do meu livro (que o filho da Exma. Sra. já havia lido em outras, não ofertado por mim, pois sempre me recusei a tal, mas por outros) e os meus "Poemas do Desespêro", nos quais êle me havia visto trabalhar, achei-me na obrigação de enviá-los, não só para êle, como para mais de quinhentas pessoas das minhas relações. Quanto às dedicatórias, minha Exma. Sra., é ainda o artista quem as escreve: é o rótulo com que aparece ao público. As minhas são sempre neste teor: "Saudades exaltadas do ..." , "Com a amizade sempre crescente do ...", "Com o carinho tristonho do ...", "Com a ternura do ..." ... Rótulos, minha Exma. Sra., frases feitas para todo o mundo. Contou-me mais tarde, em pessoa, o Roberto que a Exma. Sra. havia estranhado uma das "saudades" escritas por mim como dedicatória. Repito-lhe: calharam as "saudades", poderia ter sido "a amizade sempre crescente", ou coisa parecida. Acrescentou-me que, se a Exma. Sra. não gostou da dedicatória, ao menos apreciou alguns dos meus poemas, o que muito me lisonjeou, partindo, como partiu, de julgamento tão elevado. De um livro — já dizia alguém — sempre se salva alguma coisa: se não serve como leitura é utilíssimo para calçar um móvel pouco firme ...
Nessa ocasião Roberto me fêz crer que eu lhe poderia ser prejudicial no ambiente caseiro: que a Exma. Sra. não entenderia os meus trabalhos, nem os tipos literários que esboço e pediu-me que não mais lhe mandasse as cartas com o tradicional "Remetente: o Monstro", porque o meu nome, por fora do envelope, já se transformava num símbolo de audácia e petulância. E que, se eu lhe quisesse telefonar que o fizesse com outros nomes, ou por meios indiretos. Afinal de contas, não é bem do meu feitio entrar pela porta dos fundos da casa de quem quer que seja: sempre que apareço me faço anunciar por arautos e trombetas e sou recebido com demonstrações de agrado, simpatia e admiração. Estranhei, portanto, essa atitude do filho da Exma. Sra., a que levei por conta da sua pouca idade e inexperiência.
Roberto, se, às vêzes, me atendia friamente ao telefone — o que eu concluia ser alguma imposição da autoridade da Exma. Sra. nesse sentido — demonstrava com calor o quanto me tinha em estima quando, casualmente, me encontrava na rua.
A conduta do Roberto sempre se me apareceu extremamente contraditória: às vêzes surge como um ingênuo, um anjo que desceu à terra por um descuido, um puro imaculado a quem Copacabana ainda não atingiu e outras, um rafinado sonso, um cínico traquejado que representa o papel do menino bonzinho ... Quanto a mim, aprecio as pessoas que são como são, e sei que para resolver um problema não há nada como ventilá-lo e encará-lo de frente. Esconder, negar a existência de algo que ressalta aos olhos, que se virá a saber mais tarde, não é da minha natureza. Um colega meu e que conhece também o filho da Exma. Sra., embora sendo homem de poucas palavras, e em nada afeito às maledicências, muito surpreendido, contou-me que numa bacanal de pederastas (reuniões de homens que se embriagam e se beijam) o Roberto se houve muito bem em relações sexuais com um dêles, à vista de terceiros. Ora, ter relações com tais indivíduos já requer uma certa coragem, mas à vista de terceiros, minha Exma. Sra., revela uma frieza, uma prática que surpeende. Eu não estava presente para constatar ocularmente o ocorrido, pois não costumo freqüentar êstes lugares, embora os tenha descrito em alguns dos meus livros (Júlio Verne também descreveu o mundo inteiro sem sair da França), mas acredito no testemunho dêsse rapaz.
Outra conduta "incomum" no Roberto: a sua amizade com velhos. Jamais constatei casos semelhantes de jovens de 17 ou 18 anos, que trocam o convívio entre os iguais da sua geração, para ouvirem as saudosas lamentações de senhores carecas, que, em sendo muito versados em ciências, já se esqueceram, entretanto, das belezas da mocidade. Enquanto o comum é ter-se pelos catedráticos, pelos mestres de nome, uma veneração de respeito a certa distância. Roberto, ao contrário, aos poucos, faz-se "amiguinho" dêles. No verão passado era visto comumente na praia do Arpoador com um dêsses senhores que, embora não sendo seu pai ou parente, levava-o a passear de automóvel com um carinho todo paternal. Não acredito nessa espécie de amizades.Esta é a tese que defendo: Roberto sustenta outra diferente. Eu mesmo lhe fiz ver, certa vez, que jamais seríamos amigos, pois, se ao seu lado posso parecer um irmão mais velho (longe estou de completar os trinta anos), já me encontro, todavia, numa fase de evolução em que êle só atingirá depois da maioridade. Ao que retrucou o filho da Exma. Sra. não estar de acôrdo. O meu ponto de vista ai foi o vitorioso.
Essa disparidade de idades cria embaraços sérios. Por exemplo: se a um outro amigo meu, mais amadurecido, mandasse o "Consultando a Cigana", com um seu retrato de estudante ao qual acrescentaria umas orelhas de burro, êle certamente acharia muita graça e mandar-me-ia de volta, em prosa ou em verso, uma página defendendo pontos de vista contrários. Disto vive a intelectualidade: de polêmicas e debates. Atualmente procuro o renascimento da poesia homossexual, que tantos cultores magistrais teve a Grécia Antiga, berço da Civilização.
Interpretou-me mal o Roberto: o seu peculiar instinto de defesa reagiu como se eu o estivesse seduzindo. Minha Exma. Sra., não sou daqueles que seduzem inocentes: quando as pessoas chegam a mim, já vêm tão seduzidas, tão estragadas, que, no meio de tanta lama, chego a concluir que ainda o mais puro sou eu. A Exma Sra., com o muito que observou e viveu, pode imaginar que que desde os quinze anos trabalha em tarefas árduas, financiando com o própio esfôrço os seus estudos, e se forma em engenharia, que se aprofunda, sempre procurando a perfeição, em arte dramática, canto, "ballet", pintura, inteirando-se do segredos da Estética, para mais tarde transformar-se no professor de Psicologia, Sociologia, Metafísica, Ética, História da Filosofia, cadeiras em que já tem a honra de lecionar — nunca encontrou bastante tempo para se dedicar à pederastia de um modo prático. Pelo que a Exma. Sra. poderá verificar que os meus propósitos pairam sempre muito mais altos, que o simples ideal de possuir a amizade pouco estável do seu filho.
Agora para terminar — pois já abuso da paciência da Exma. Sra. — um conselho de quem espera e deseja para o Roberto um futuro radioso: a Exma. Sra. é mãe de um rapaz de méritos, realmente, excepcionais. Falta-lhe apenas o amadurecimento, a solução de certos conflitos decorrentes de uma inadaptação às solicitações da sexualidade. A adolescência é um período difícil que requer compreensão e orientação realista. O fato de sair com meninas virgens, levá-las a cinemas ou sorveterias, se consegue salvas as aparências, não resolverá, entretanto, a satisfação plena das suas necessidades. A Exma. Sra. já imaginou que as mulheres de vida fácil, portadoras, quase sempre, de moléstias venéreas, fazem-se cobrar a mais de duzentos cruzeiros? E que seu filho, não trabalhando, não possui, em todo momento, quantias tão elevadas? E que se arranjar uma outra rapariga, honesta mas independente, que por êle se interesse, não terá um lugar onde a levar? Roberto é orgulhoso: jamais pediria emprestadas as chaves de um apartamento a um amigo. São problemas, e mais problemas. O lógico seria que se permitissem tais contatos, no própio seio acolhedor do lar, como já se adota em certos países de mentalidade mais prática. Que mal haverá em um rapaz trazer uma mulher para com êle passar a noite em sua casa, embora esta casa seja a residência da sua veneranda mãe? Êste costume, em algumas localidades européias, é a regra. Pela manhã, com a maior das naturalidades, são feitas as devidas apresentações e todos tomam café matinal num ambiente de perfeita cordialidade. Isto é o mais limpo, e o mais inteligente. Aos latinos repugna uma moralidade natural: revestem-se de noções falsas de cristandade que só servem para, em tudo, dificultar a vida.
— Moral — disse-me, um dia, o professor Henrique Fragoso — é do umbigo para cima; do umbigo para baixo o que há é uma outra coisa ...
Se o Roberto decepcioná-la, algum dia, da cintura para baixo, antes de julgá-lo, de trazer aos seus problemas mais um: o da incompreensão e da instabilidade no lar, que faça a Exma. Sra. um exame de consciência: até que ponto facilitei-lhe meios para agir de outra forma? Em quanto lhe favoreci para que mantivesse sempre estável o seu equilíbrio homeostático? ... E pense, conformada, que, da cintura para cima, as suas qualidades, os seus princípios, a sua fôrça de verdade, são suficientes para compensar a outra metade.
Um recado para o Roberto: não mais o procurarei, e se o procurei outrora foi com seu assentimento tácito ou expresso (nunca lhe enviei uma carta sem a antecipada permissão; para os lugares que foi comigo, não foi arrastado, antes, com suas própias pernas e de livre vontade). Também não mais o cumprimentarei na rua ou em qualquer canto em que o encontre e que êle não se ofenda muito por isto.
Se, algum dia, perguntarem-me se conheci o filho da Exma Sra. terei a honra de dizer que não. Entretanto, se precisar de mim futuramente, estarei sempre ao seu inteiro dispor — pois não faço conceito das pessoas pelo que são na adolescência ou na criancisse, mas pelo muito que poderão ser em hombridade mais tarde.
Peço, outrosim, que o filho da Exma. Sra. aja com a dignidade que o caracteriza: reúna num embrulho os livros e poemas que lhe enviei pois têm a minha assinatura e mos restitua pelo correio com porte registrado. Não é justo que alguém conserve inéditos e éditos autografados de um indivíduo de quem não se quer relações e muito menos notícias. Se eu algum dia tornar-me famoso, glória nacional — que para tanto trabalho cada instante da minha vida — êle poderia vangloriar-se de uma amizade que, realmente nunca existiu. Nada possuo em meu poder que possa documentar um passado com o Roberto, apenas recordações de dignidade e atenções. Mas estas as leva o vento e esquece-as o tempo ...
No mais, se esta carta em nada serviu para ajudar a salvar o seu filho, ao menos, salvará a minha reputação de anormal honrado diante dos olhos bondosos da Exma. Sra.
Com a admiração e a estima do
Monstro.
P.S.: — Da minha bagagem literária, além das produções que causam escândalo, possuo trabalhos filosóficos de real valor, que algum dia me darão glória, mas pelos quais o Roberto, por mais que eu me esforçasse, jamais se interessou. No meio do charco não soube colhêr os lírios; a culpa não foi minha, foi dele somente ..."
Saindo a vigésima-quinta edição do meu livro (que o filho da Exma. Sra. já havia lido em outras, não ofertado por mim, pois sempre me recusei a tal, mas por outros) e os meus "Poemas do Desespêro", nos quais êle me havia visto trabalhar, achei-me na obrigação de enviá-los, não só para êle, como para mais de quinhentas pessoas das minhas relações. Quanto às dedicatórias, minha Exma. Sra., é ainda o artista quem as escreve: é o rótulo com que aparece ao público. As minhas são sempre neste teor: "Saudades exaltadas do ..." , "Com a amizade sempre crescente do ...", "Com o carinho tristonho do ...", "Com a ternura do ..." ... Rótulos, minha Exma. Sra., frases feitas para todo o mundo. Contou-me mais tarde, em pessoa, o Roberto que a Exma. Sra. havia estranhado uma das "saudades" escritas por mim como dedicatória. Repito-lhe: calharam as "saudades", poderia ter sido "a amizade sempre crescente", ou coisa parecida. Acrescentou-me que, se a Exma. Sra. não gostou da dedicatória, ao menos apreciou alguns dos meus poemas, o que muito me lisonjeou, partindo, como partiu, de julgamento tão elevado. De um livro — já dizia alguém — sempre se salva alguma coisa: se não serve como leitura é utilíssimo para calçar um móvel pouco firme ...
Nessa ocasião Roberto me fêz crer que eu lhe poderia ser prejudicial no ambiente caseiro: que a Exma. Sra. não entenderia os meus trabalhos, nem os tipos literários que esboço e pediu-me que não mais lhe mandasse as cartas com o tradicional "Remetente: o Monstro", porque o meu nome, por fora do envelope, já se transformava num símbolo de audácia e petulância. E que, se eu lhe quisesse telefonar que o fizesse com outros nomes, ou por meios indiretos. Afinal de contas, não é bem do meu feitio entrar pela porta dos fundos da casa de quem quer que seja: sempre que apareço me faço anunciar por arautos e trombetas e sou recebido com demonstrações de agrado, simpatia e admiração. Estranhei, portanto, essa atitude do filho da Exma. Sra., a que levei por conta da sua pouca idade e inexperiência.
Roberto, se, às vêzes, me atendia friamente ao telefone — o que eu concluia ser alguma imposição da autoridade da Exma. Sra. nesse sentido — demonstrava com calor o quanto me tinha em estima quando, casualmente, me encontrava na rua.
A conduta do Roberto sempre se me apareceu extremamente contraditória: às vêzes surge como um ingênuo, um anjo que desceu à terra por um descuido, um puro imaculado a quem Copacabana ainda não atingiu e outras, um rafinado sonso, um cínico traquejado que representa o papel do menino bonzinho ... Quanto a mim, aprecio as pessoas que são como são, e sei que para resolver um problema não há nada como ventilá-lo e encará-lo de frente. Esconder, negar a existência de algo que ressalta aos olhos, que se virá a saber mais tarde, não é da minha natureza. Um colega meu e que conhece também o filho da Exma. Sra., embora sendo homem de poucas palavras, e em nada afeito às maledicências, muito surpreendido, contou-me que numa bacanal de pederastas (reuniões de homens que se embriagam e se beijam) o Roberto se houve muito bem em relações sexuais com um dêles, à vista de terceiros. Ora, ter relações com tais indivíduos já requer uma certa coragem, mas à vista de terceiros, minha Exma. Sra., revela uma frieza, uma prática que surpeende. Eu não estava presente para constatar ocularmente o ocorrido, pois não costumo freqüentar êstes lugares, embora os tenha descrito em alguns dos meus livros (Júlio Verne também descreveu o mundo inteiro sem sair da França), mas acredito no testemunho dêsse rapaz.
Outra conduta "incomum" no Roberto: a sua amizade com velhos. Jamais constatei casos semelhantes de jovens de 17 ou 18 anos, que trocam o convívio entre os iguais da sua geração, para ouvirem as saudosas lamentações de senhores carecas, que, em sendo muito versados em ciências, já se esqueceram, entretanto, das belezas da mocidade. Enquanto o comum é ter-se pelos catedráticos, pelos mestres de nome, uma veneração de respeito a certa distância. Roberto, ao contrário, aos poucos, faz-se "amiguinho" dêles. No verão passado era visto comumente na praia do Arpoador com um dêsses senhores que, embora não sendo seu pai ou parente, levava-o a passear de automóvel com um carinho todo paternal. Não acredito nessa espécie de amizades.Esta é a tese que defendo: Roberto sustenta outra diferente. Eu mesmo lhe fiz ver, certa vez, que jamais seríamos amigos, pois, se ao seu lado posso parecer um irmão mais velho (longe estou de completar os trinta anos), já me encontro, todavia, numa fase de evolução em que êle só atingirá depois da maioridade. Ao que retrucou o filho da Exma. Sra. não estar de acôrdo. O meu ponto de vista ai foi o vitorioso.
Essa disparidade de idades cria embaraços sérios. Por exemplo: se a um outro amigo meu, mais amadurecido, mandasse o "Consultando a Cigana", com um seu retrato de estudante ao qual acrescentaria umas orelhas de burro, êle certamente acharia muita graça e mandar-me-ia de volta, em prosa ou em verso, uma página defendendo pontos de vista contrários. Disto vive a intelectualidade: de polêmicas e debates. Atualmente procuro o renascimento da poesia homossexual, que tantos cultores magistrais teve a Grécia Antiga, berço da Civilização.
Interpretou-me mal o Roberto: o seu peculiar instinto de defesa reagiu como se eu o estivesse seduzindo. Minha Exma. Sra., não sou daqueles que seduzem inocentes: quando as pessoas chegam a mim, já vêm tão seduzidas, tão estragadas, que, no meio de tanta lama, chego a concluir que ainda o mais puro sou eu. A Exma Sra., com o muito que observou e viveu, pode imaginar que que desde os quinze anos trabalha em tarefas árduas, financiando com o própio esfôrço os seus estudos, e se forma em engenharia, que se aprofunda, sempre procurando a perfeição, em arte dramática, canto, "ballet", pintura, inteirando-se do segredos da Estética, para mais tarde transformar-se no professor de Psicologia, Sociologia, Metafísica, Ética, História da Filosofia, cadeiras em que já tem a honra de lecionar — nunca encontrou bastante tempo para se dedicar à pederastia de um modo prático. Pelo que a Exma. Sra. poderá verificar que os meus propósitos pairam sempre muito mais altos, que o simples ideal de possuir a amizade pouco estável do seu filho.
Agora para terminar — pois já abuso da paciência da Exma. Sra. — um conselho de quem espera e deseja para o Roberto um futuro radioso: a Exma. Sra. é mãe de um rapaz de méritos, realmente, excepcionais. Falta-lhe apenas o amadurecimento, a solução de certos conflitos decorrentes de uma inadaptação às solicitações da sexualidade. A adolescência é um período difícil que requer compreensão e orientação realista. O fato de sair com meninas virgens, levá-las a cinemas ou sorveterias, se consegue salvas as aparências, não resolverá, entretanto, a satisfação plena das suas necessidades. A Exma. Sra. já imaginou que as mulheres de vida fácil, portadoras, quase sempre, de moléstias venéreas, fazem-se cobrar a mais de duzentos cruzeiros? E que seu filho, não trabalhando, não possui, em todo momento, quantias tão elevadas? E que se arranjar uma outra rapariga, honesta mas independente, que por êle se interesse, não terá um lugar onde a levar? Roberto é orgulhoso: jamais pediria emprestadas as chaves de um apartamento a um amigo. São problemas, e mais problemas. O lógico seria que se permitissem tais contatos, no própio seio acolhedor do lar, como já se adota em certos países de mentalidade mais prática. Que mal haverá em um rapaz trazer uma mulher para com êle passar a noite em sua casa, embora esta casa seja a residência da sua veneranda mãe? Êste costume, em algumas localidades européias, é a regra. Pela manhã, com a maior das naturalidades, são feitas as devidas apresentações e todos tomam café matinal num ambiente de perfeita cordialidade. Isto é o mais limpo, e o mais inteligente. Aos latinos repugna uma moralidade natural: revestem-se de noções falsas de cristandade que só servem para, em tudo, dificultar a vida.
— Moral — disse-me, um dia, o professor Henrique Fragoso — é do umbigo para cima; do umbigo para baixo o que há é uma outra coisa ...
Se o Roberto decepcioná-la, algum dia, da cintura para baixo, antes de julgá-lo, de trazer aos seus problemas mais um: o da incompreensão e da instabilidade no lar, que faça a Exma. Sra. um exame de consciência: até que ponto facilitei-lhe meios para agir de outra forma? Em quanto lhe favoreci para que mantivesse sempre estável o seu equilíbrio homeostático? ... E pense, conformada, que, da cintura para cima, as suas qualidades, os seus princípios, a sua fôrça de verdade, são suficientes para compensar a outra metade.
Um recado para o Roberto: não mais o procurarei, e se o procurei outrora foi com seu assentimento tácito ou expresso (nunca lhe enviei uma carta sem a antecipada permissão; para os lugares que foi comigo, não foi arrastado, antes, com suas própias pernas e de livre vontade). Também não mais o cumprimentarei na rua ou em qualquer canto em que o encontre e que êle não se ofenda muito por isto.
Se, algum dia, perguntarem-me se conheci o filho da Exma Sra. terei a honra de dizer que não. Entretanto, se precisar de mim futuramente, estarei sempre ao seu inteiro dispor — pois não faço conceito das pessoas pelo que são na adolescência ou na criancisse, mas pelo muito que poderão ser em hombridade mais tarde.
Peço, outrosim, que o filho da Exma. Sra. aja com a dignidade que o caracteriza: reúna num embrulho os livros e poemas que lhe enviei pois têm a minha assinatura e mos restitua pelo correio com porte registrado. Não é justo que alguém conserve inéditos e éditos autografados de um indivíduo de quem não se quer relações e muito menos notícias. Se eu algum dia tornar-me famoso, glória nacional — que para tanto trabalho cada instante da minha vida — êle poderia vangloriar-se de uma amizade que, realmente nunca existiu. Nada possuo em meu poder que possa documentar um passado com o Roberto, apenas recordações de dignidade e atenções. Mas estas as leva o vento e esquece-as o tempo ...
No mais, se esta carta em nada serviu para ajudar a salvar o seu filho, ao menos, salvará a minha reputação de anormal honrado diante dos olhos bondosos da Exma. Sra.
Com a admiração e a estima do
Monstro.
P.S.: — Da minha bagagem literária, além das produções que causam escândalo, possuo trabalhos filosóficos de real valor, que algum dia me darão glória, mas pelos quais o Roberto, por mais que eu me esforçasse, jamais se interessou. No meio do charco não soube colhêr os lírios; a culpa não foi minha, foi dele somente ..."
Quando terminou, o monstro respirou aliviado. E riu. Riu, como nunca: gargalhou mesmo, como um louco. Antegozava o prazer da devastação que um coração ferido de poeta faria num coração orgulhoso de mãe.
Esperou, com mêdo, a reação. Pensou mesmo que seria assassinado pelas costas. Entre continuar abandonado e morrer, preferia a morte. Quis que Roberto o ofendesse, o procurasse e o estrangulasse. Mas apenas o silêncio ecoava naquele deserto de estupidez. Depois de quinze dias de dolorosa expectativa, a resposta:
! A sua carta só pode ter um destino: a volta imediata à sua origem perversa. As acusações nela contidas não atingiram o acusado. Êle está muito acima delas e do seu autor.
As insinuações de um cérebro doentio e mau, só encontram campo fértil onde há estéreo adubador. Se o seu intuito foi a desconfiança, pode estar certo que não gerou dúvida alguma.
Sempre segui os conselhos de meu Pai que me ensinou a só dar valor às acusações e aos insultos de acôrdo com a sua procedência. Não é êste o caso. A fonte de onde êstes brotaram é da ordem daquelas que se lastimam mas não se consideram.
Guarde os seus conselhos, os seus cuidados e a sua glória para aquêles que o apreciam.
Que Deus tenha piedade dêles e do senhor também..."
O Monstro caiu em si. Mais uma punhalada, mais uma ofensa vomitada nas suas faces carcomidas pelo sofrimento. Situou-se dentro de sua realidade e viu-se tal como realmente era: um marginal, a quem todos desprezavam, um divertimento barato dos rapazes fúteis da sociedade, um passatempo excitante para os Robertinhos desejosos de novas sensações.
"Êle já não me ama ... Êle já não me quer ... Não importa ... "
Apanhou a caneta e foi lacônico:
" Minha Exma. Sra.
Amém! ...
SINFONIA FILOSÓFICA
Primeiro movimento ( Valsa brilhante)
Depois da mocidade
e seus desvarios,
depois do ódio e
da competição,
depois do amor e
das desilusões,
depois das negações
dos valores,
depois das paisagens
sem brilhos
e dos homens sem
cores,
depois das "constâncias"
intermináveis
que se repetem,
depois da nostalgia
e da melancolia,
depois da dor
e do sofrimento
da alegria e do prazer,
depois do suicídio
da existência,
depois da fuga,
do vôo ao infinito,
soltar um grito
de revolta nacional,
e, só então, pensar
filosofar ...
Segudo movimento (Noturno kirkegaardiano)
Desde que se encontre realizada
a perfeita coincidência do pensamento
com a vida,
já não há motivos para falar,
escrever ou raciocinar.
Eu penso, portanto, não existo.
A solução é o Cristo,
um Cristo sem pavor nem receios,
um Cristo amor, só amor.
Existir é sofrer necessariamente
a angúsitia e o desespero.
Uns desesperam em verdade;
outros desesperam em êrro.
Pobre do que, com mêdo,
refugia-se do segrêdo
da sua miséria.
Torna-se louco, maníaco,
prêsa fácil
do desespero demoníaco.
A angústia é o desejo
do que se teme,
temor do que se deseja.
Quer o desespêro a libertação;
com a perfeição
sonha a angústia.
E o indivíduo, cercado
por muros invisíveis,
debate-se em obstácculos instransponíveis:
terror de ser sòzinho
e uno, ser existente,
diferente dos demais.
— Fugirei, um dia, da angústia e do desespêro? — pergunta chorando o homem.
E o eco lhe responde:
— Jamais ...
Terceiro movimento (Mazurca nietzschiana)
Anuncio-vos o fim
do Cristianismo.
Sou a única moral
que vos libertará
dêsse drama passional.
A Justiça é sempre
a do mais forte.
Nesse vale
onde os lobos
os outros lobos comem,
eu sou o Norte
que vos conduzirá
â Felicidade.
Sou a suprema verdade:
o Super-Homem!
"Não há diabo nem inferno!"
Sou o Eterno!
Eis a cura
para todos os vossos males:
a loucura.
Quarto movimento (Dueto platônico)
— Choro, mestre imortal.
Meu sofrimento é maior
que tôda a Humanidade.
— Eis a Realidade:
os reinos celestiais.
— Quero esquecer-me da dor, dos meus ais...
— A única solução
é o caminho da Imaginação.
Trás comigo para o mundo
das reminiscências.
— Fugirei das misérias, degenerescências?!...
— E conhecerás, as Idéias perfeitas,
arquétipos indestrutíveis,
que te conduzirão ao lindo festival
das essências.
— A alma, caro Platão, é imortal?
— Claro que é. Se ela não fôsse,
teria eu essa alegria, essa fé? ...
— Não sei, Sofro tanto...
— O espírito à matéria perdura.
O resto não importa.
— Minha alma nasceu morta.
— Explica-te homem. Que dúvidas
te consomem?
— Encabulado, não sei
como lhe revelar minha agonia,
o meu tormento ...
— A pederastia? ...
— Oh! O senhor revelou
o que eu lhe queria ocultar.
— Que bobagem! Onde já se viu
uma criança, por tão pouco, chorar? ...
Vem; senta-se aqui ao meu lado:
não gosto de te ver, assim, amargurado.
Contar-te-ei a lenda bela
daqueles sêres excepcionais
que de andróginos se chamaram outrora.
Havia machos, filhos do sol,
e fêmeas, filhas da terra;
mas, além, depois da planície e da serra,
nasceram, num descampado, os filhos da lua:
fortes e ágeis, corajosos até à temeridade,
dóceis, cheios de compreensão e bondade.
Eram jovens e poderosos; possuíam
quatro braços, quatro pernas e dois órgãos genitais,
que podiam ser, ambos masculinos
ou ambos femininos.
Um dia essa raça privilegiada
quis fazer guerra aos deuses,
subir às regiões austrais.
Júpiter, chefe supremo, raivoso,
contra tanta ousadia,
resolveu castigá-los:
partiu-os em dois.
— E o que aconteceu depois? ...
— O que era de esperar:
na humanidade
começou a existir, lado a lado,
o homem, a mulher e a metade.
Cada metade, desde então,
numa agonia, começou a procurar
a sua outra metade.
Quando uma das partes
a outra mostrava,
a ela se unia, procurando, destarte,
reconstituir o todo original.
................................................................................................
Mas, o que é isto, adolescente belo?...
Não chores. Vamos, sorri.
Estou com a minha história
te fazendo mal?
— É tão bonita ... Já começo a ver-me
com outros olhos, diferente ...
— É assim que eu te quero sempre:
contente.
Agora deixa de chorar.
O amor, meu filho, não tem sexo;
se encontrares a tua
verdadeira metade.
ama-a,
que ela te saberá também, amar ...
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Esperou, com mêdo, a reação. Pensou mesmo que seria assassinado pelas costas. Entre continuar abandonado e morrer, preferia a morte. Quis que Roberto o ofendesse, o procurasse e o estrangulasse. Mas apenas o silêncio ecoava naquele deserto de estupidez. Depois de quinze dias de dolorosa expectativa, a resposta:
! A sua carta só pode ter um destino: a volta imediata à sua origem perversa. As acusações nela contidas não atingiram o acusado. Êle está muito acima delas e do seu autor.
As insinuações de um cérebro doentio e mau, só encontram campo fértil onde há estéreo adubador. Se o seu intuito foi a desconfiança, pode estar certo que não gerou dúvida alguma.
Sempre segui os conselhos de meu Pai que me ensinou a só dar valor às acusações e aos insultos de acôrdo com a sua procedência. Não é êste o caso. A fonte de onde êstes brotaram é da ordem daquelas que se lastimam mas não se consideram.
Guarde os seus conselhos, os seus cuidados e a sua glória para aquêles que o apreciam.
Que Deus tenha piedade dêles e do senhor também..."
O Monstro caiu em si. Mais uma punhalada, mais uma ofensa vomitada nas suas faces carcomidas pelo sofrimento. Situou-se dentro de sua realidade e viu-se tal como realmente era: um marginal, a quem todos desprezavam, um divertimento barato dos rapazes fúteis da sociedade, um passatempo excitante para os Robertinhos desejosos de novas sensações.
"Êle já não me ama ... Êle já não me quer ... Não importa ... "
Apanhou a caneta e foi lacônico:
" Minha Exma. Sra.
Amém! ...
O Monstro."
Num grande envelope, devolveu para o Roberto aquelas poesias, que continham a essência da sua alma.
" Roberto,
queiras ou não assumir a paternidade da criança, êste é o fruto do nosso amor: dei-lhe o nome de "Monstro" porque, todo êle se parece contigo.
A culpa não foi minha se nasceu aleijado ou defeituoso. Como gritasse e chorasse muito por ocasião do parto, acrescentei-lhe, como sobrenome, o "Que Chora". Se algum dia crescer, tornar-se adulto, fica ciente que não é só meu o filho: corre muito do teu sangue podre nas suas veias ... "
MONSTROS À MARGEM DA VIDA ...
Nós, apenas nós,
somos os sós.
Ninguém nos quer:
realmente
é de mulher.
Para nós
só há uma verdade:
somos as párias da sociedade.
A margem da vida
vamos fingindo
que existimos;
mas só nós sabemos
o que no fundo,
o que lá dentro,
todos sentimos:
tristeza e dor,
solidão e ódio ...
Os outros casam
e filhos têm,
e nós continuamos
sempre sem ninguém.
Se anda um casal
agarradinho,
num canto escuro,
é natural,
ninguém olha
e ningué liga:
mas se uma amigo
aperta a mão
de um companheiro,
com ternura e devoção,
no mesmo instante,
se horroriza
o mundo inteiro.
Sim! Estão erradas as leis:
onde escreveram:
" os direitos são iguais "
— deveriam acrescentar:
" para os normais ".
As nossas razões
ninguém entende
nem pretende compreender;
estamos condenados,
desde o nascimento,
a sofrer.
Os outros amam
e se amigam
e se descasam
e nós continuamos
de longe, observando-os,
tristonhos,
sempre à margem da vida,
diferentes,
nesse eterno
sonho medonho.
De um lado grita-nos a alma:
— Vive! Ama!
— e de outro, as famílias,
horrorizadas:
— Que se limitem à cama ...
Ninguém nos quer:
não somos homens,
nem mulher.
Se temos sensibilidade,
se choramos, se também amamos,
disso não se preocupa
a sociedade.
E na festa linda em que todos
se vão nos pares,
nós, sòmente nós,
continuamos
sempre sós ...
SINFONIA FILOSÓFICA
Primeiro movimento ( Valsa brilhante)
Depois da mocidade
e seus desvarios,
depois do ódio e
da competição,
depois do amor e
das desilusões,
depois das negações
dos valores,
depois das paisagens
sem brilhos
e dos homens sem
cores,
depois das "constâncias"
intermináveis
que se repetem,
depois da nostalgia
e da melancolia,
depois da dor
e do sofrimento
da alegria e do prazer,
depois do suicídio
da existência,
depois da fuga,
do vôo ao infinito,
soltar um grito
de revolta nacional,
e, só então, pensar
filosofar ...
Segudo movimento (Noturno kirkegaardiano)
Desde que se encontre realizada
a perfeita coincidência do pensamento
com a vida,
já não há motivos para falar,
escrever ou raciocinar.
Eu penso, portanto, não existo.
A solução é o Cristo,
um Cristo sem pavor nem receios,
um Cristo amor, só amor.
Existir é sofrer necessariamente
a angúsitia e o desespero.
Uns desesperam em verdade;
outros desesperam em êrro.
Pobre do que, com mêdo,
refugia-se do segrêdo
da sua miséria.
Torna-se louco, maníaco,
prêsa fácil
do desespero demoníaco.
A angústia é o desejo
do que se teme,
temor do que se deseja.
Quer o desespêro a libertação;
com a perfeição
sonha a angústia.
E o indivíduo, cercado
por muros invisíveis,
debate-se em obstácculos instransponíveis:
terror de ser sòzinho
e uno, ser existente,
diferente dos demais.
— Fugirei, um dia, da angústia e do desespêro? — pergunta chorando o homem.
E o eco lhe responde:
— Jamais ...
Terceiro movimento (Mazurca nietzschiana)
Anuncio-vos o fim
do Cristianismo.
Sou a única moral
que vos libertará
dêsse drama passional.
A Justiça é sempre
a do mais forte.
Nesse vale
onde os lobos
os outros lobos comem,
eu sou o Norte
que vos conduzirá
â Felicidade.
Sou a suprema verdade:
o Super-Homem!
"Não há diabo nem inferno!"
Sou o Eterno!
Eis a cura
para todos os vossos males:
a loucura.
Quarto movimento (Dueto platônico)
— Choro, mestre imortal.
Meu sofrimento é maior
que tôda a Humanidade.
— Eis a Realidade:
os reinos celestiais.
— Quero esquecer-me da dor, dos meus ais...
— A única solução
é o caminho da Imaginação.
Trás comigo para o mundo
das reminiscências.
— Fugirei das misérias, degenerescências?!...
— E conhecerás, as Idéias perfeitas,
arquétipos indestrutíveis,
que te conduzirão ao lindo festival
das essências.
— A alma, caro Platão, é imortal?
— Claro que é. Se ela não fôsse,
teria eu essa alegria, essa fé? ...
— Não sei, Sofro tanto...
— O espírito à matéria perdura.
O resto não importa.
— Minha alma nasceu morta.
— Explica-te homem. Que dúvidas
te consomem?
— Encabulado, não sei
como lhe revelar minha agonia,
o meu tormento ...
— A pederastia? ...
— Oh! O senhor revelou
o que eu lhe queria ocultar.
— Que bobagem! Onde já se viu
uma criança, por tão pouco, chorar? ...
Vem; senta-se aqui ao meu lado:
não gosto de te ver, assim, amargurado.
Contar-te-ei a lenda bela
daqueles sêres excepcionais
que de andróginos se chamaram outrora.
Havia machos, filhos do sol,
e fêmeas, filhas da terra;
mas, além, depois da planície e da serra,
nasceram, num descampado, os filhos da lua:
fortes e ágeis, corajosos até à temeridade,
dóceis, cheios de compreensão e bondade.
Eram jovens e poderosos; possuíam
quatro braços, quatro pernas e dois órgãos genitais,
que podiam ser, ambos masculinos
ou ambos femininos.
Um dia essa raça privilegiada
quis fazer guerra aos deuses,
subir às regiões austrais.
Júpiter, chefe supremo, raivoso,
contra tanta ousadia,
resolveu castigá-los:
partiu-os em dois.
— E o que aconteceu depois? ...
— O que era de esperar:
na humanidade
começou a existir, lado a lado,
o homem, a mulher e a metade.
Cada metade, desde então,
numa agonia, começou a procurar
a sua outra metade.
Quando uma das partes
a outra mostrava,
a ela se unia, procurando, destarte,
reconstituir o todo original.
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Mas, o que é isto, adolescente belo?...
Não chores. Vamos, sorri.
Estou com a minha história
te fazendo mal?
— É tão bonita ... Já começo a ver-me
com outros olhos, diferente ...
— É assim que eu te quero sempre:
contente.
Agora deixa de chorar.
O amor, meu filho, não tem sexo;
se encontrares a tua
verdadeira metade.
ama-a,
que ela te saberá também, amar ...
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Esse livro é maravilhoso... Tive o privilégio de lê-lo a anos atrás e emprestei a um amigo que perdeu...Devido ser um livro muito antigo e super difícil encontrá-lo... Só existe um exemplar na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro....Quem tiver um que queira vendê-lo ou possa confiar em me emprestar... Entre em contato: roy-sampaio@hotmail.com. Obrigado.
ResponderExcluirAcabei encontrando o meu esses dias hahaha .... pensei q nunca mais fosse vê-lo novamente. Vou acabar de digitar aqui no blog.
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